Em meio à crise habitacional, precarização do trabalho e envelhecimento demográfico, a ascensão da extrema-direita nas eleições presidenciais de 2026 em Portugal destaca contradições sociais e ideológicas que vão além da simples disputa eleitoral.
Eleições em Portugal expõem contradições sociais, dependência de trabalho imigrante e crescimento da extrema-direita
Lisboa — As eleições presidenciais portuguesas de 2026, que avançaram para segundo turno em 8 de fevereiro, não podem ser compreendidas apenas como uma disputa entre candidatos — elas expressam tensões estruturais profundas na sociedade portuguesa. A análise da publicação Outras Palavras aponta que o processo eleitoral evidencia uma contradição central: a economia de Portugal depende de trabalho imigrante, enquanto a retórica política de parte da direita radical instrumentaliza o ódio xenófobo para ganhar apoio.
Segundo o texto, a ascensão de André Ventura, líder do partido Chega, ao posto de um dos principais concorrentes reflete uma estratégia que captura o descontentamento social — alimentado pela crise do custo de vida, precarização laboral e crise da habitação — e o converte em discurso identitário e de exclusão.
A contradição entre economia e discurso político
Portugal enfrenta hoje desafios complexos: a crise habitacional nas grandes cidades, impulsionada por especulação imobiliária e aumento de preços, torna difícil para trabalhadores — tanto nacionais quanto imigrantes — encontrar moradia acessível, criando frustrações que caem no terreno fértil dos discursos simplistas de culpabilização.
Paradoxalmente, a própria economia portuguesa depende cada vez mais do trabalho imigrante para sustentar setores essenciais, dada a combinação de envelhecimento demográfico e necessidade de mão de obra em serviços, indústria e plataformas digitais — um quadro que mostra como imigrantes se tornaram pilares do funcionamento econômico.
Esse paradoxo entre dependência econômica e hostilidade política cria um terreno fértil para que partidos como o Chega transformem queixas sociais em um discurso de ódio identitário, desviando a atenção dos problemas estruturais do capitalismo contemporâneo e colocando o imigrante como bode expiatório.
Causas estruturais e discursos simplificados
A análise crítica ressalta que problemas reais — como a precarização do trabalho e a informalização das relações laborais — são muitas vezes transformados em narrativas redutoras que apontam o imigrante como responsável pelos males sociais. Nesse contexto, a xenofobia intensa e a divisão simbólica entre “imigrantes bons” e “imigrantes maus” servem para reforçar hierarquias raciais e sociais que legitimam políticas excludentes.
Essa narrativa é reforçada por ações simbólicas e campanhas que associam o imigrante a problemas sociais, quando a verdade estrutural é que a precaridade laboral e a exploração econômica atingem tanto nacionais quanto estrangeiros, em especial nos serviços e no trabalho mediado por plataformas digitais.
O papel da extrema-direita e o cenário eleitoral
A ascensão do Chega ao papel de pivô político em Portugal — sendo um dos principais partidos parlamentares desde as eleições legislativas de 2025 — demonstra uma fragmentação crescente do sistema político, com perda de hegemonia dos partidos tradicionais e maior espaço para discursos populistas e radicais.
Em eleições presidenciais de 2026, o partido conseguiu eleger seu líder como um dos dois finalistas ao cargo de Presidente da República, confrontando o candidato do Partido Socialista. Esse avanço se dá em um quadro em que questões como imigração, custo de vida e precarização são mobilizadas de forma polarizadora, influenciando o comportamento eleitoral.
Enquanto o candidato socialista representa uma postura mais moderada e institucional, o discurso de Ventura se apoia em uma narrativa de contestação e ruptura, frequentemente associada a posições duras sobre imigração e identidade nacional — elementos que refletem tensões sociais profundas.
Impactos sociais e futuro político
Esse comportamento eleitoral não pode ser dissociado da realidade social que Portugal enfrenta: crescimento da população idosa em contraposição à baixa natalidade, necessidade de trabalho estrangeiro e limitações estruturais no mercado imobiliário e no acesso à proteção social.
A forma como essas tensões são traduzidas em política eleitoral — e potencialmente em políticas públicas — determinará não apenas o resultado da eleição presidencial, mas também o futuro da coesão social e das respostas às desigualdades estruturais em Portugal. A eleição torna-se assim mais do que uma escolha de líderes, mas um teste à capacidade da sociedade de confrontar discursos de ódio e desigualdade com políticas que promovam inclusão e justiça social.
Conclusão
As eleições presidenciais de 2026 em Portugal não são apenas um pleito isolado, mas um espelho das contradições sociais e econômicas de um país em transformação. A crise da habitação, a precarização do trabalho e a dependência de mão de obra imigrante criam um terreno fértil para a ascensão de discursos políticos polarizadores que exploram o descontentamento popular. O resultado — e, mais importante, o pós-eleição — mostrará se Portugal seguirá reforçando políticas de exclusão ou se será capaz de enfrentar as causas profundas dessas tensões.
Fontes
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Outras Palavras
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Le Monde Diplomatique
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Wikipedia (EN) – 2026 Portuguese presidential election (informações oficiais sobre o cenário eleitoral e segundo turno)








