sábado, outubro 31, 2026

Portugal: A Nova Face da Imigração

 

Portugal: A Nova Face da Imigração

Vou contar uma história que tenho acompanhado de perto. É sobre a nova face da imigração de Portugal, um país que acredito sem se dar conta, transformou-se  num destino muito procurado por meio mundo. Mas para ser sincera, como tudo na vida, esta transformação tem dois lados bem diferentes: a dos números muito divulgado e o das pessoas que, dia apos dia, lutam desesperadas para ficar.

Lembro-me bem de como era em 2006, época em que cheguei. Naquela altura, a imigração era uma realidade mais silenciosa. Quem vinha para Portugal era, sobretudo, oriundos do Brasil, dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa ou do Leste Europeu, e vinham para trabalhar sobretudo na construção civil ou em fábricas. As filas na imigração eram mais curtas, os alugueis não eram este absurdo que se vê hoje, e conseguir um agendamento no SEF já era chato, mas não era uma missão “quase impossível” como atualmente. A vida era mais barata e, confesso o português dessa época estava habituado a ver os imigrantes como os “vizinhos do lado”, e não sentia que o seu pais iria mudar tão rapidamente.

Agora, passados quase 20 anos, a história é completamente diferente.

Chegamos a 2026 e Portugal nunca teve tanta gente. Somos mais de 11 milhões, pelo que dizem os números, e tudo por causa de quem chegou de fora.  Mas, isso aconteceu porque Portugal autorizou que entrassem, ninguém caiu de paraquedas. Com o passar do tempo, acompanhei na televisão que em 4 anos a população estrangeira duplicou. No meu simples entender é um diluvio de gente!

Nas ruas os sotaques mudaram. Se em 2006 a maioria era de Angola e Cabo Verde, agora o que mais se houve é o brasileiro. Também ouço muitos indianos, nepaleses e bengalis, que há quase 20 anos eram praticamente invisíveis por aqui. As lojas e os restaurantes nas grandes cidades são o reflexo vivo disto.

Mas, para ser honesta, se em 2006 a experiência de imigrar era uma escalada difícil, mas previsível, hoje parece uma autêntica montanha-russa de sofrimento pessoal e familiar. E vou dizer o porquê.

Primeiro, os custos. Meu Deus, os custos! Em 2006, com um ordenado mínimo, ainda se conseguia sobreviver em um imóvel modesto. Hoje, é um pesadelo. Renda, energia, água, alimentação, locomoção, vestuário, gás, saúde, tudo subiu. Ou seja, o sonho português rapidamente se tornou num pesadelo financeiro e emocional. Em 2006 o custo de vida doía, mas não matava o sonho como esta a matar agora.

Segundo, a burocracia e a falta de conhecimento. Esta é a parte que mais me parte o coração. Vejo pessoas a chegar cheias de esperanças, completamente perdidas. Não sabem os seus direitos, não sabem onde bater à porta, e quando se deparam com a porta é a AIMA. (antigo SEF) É de loucos! Passam a madrugada nas filas para conseguir uma senha, e nem assim. Ficam meses, anos, a espera de um simples papel. Em 2006 os serviços eram lentos, sim, mas agora andam literalmente a passos de tartaruga, à rasca mesmo. E as pessoas que ficam presas em Portugal, sem poderem viajar, porque a renovação do título de residência não saí. Juntando a isso tudo, a falta de informação leva-os a cair em armadilhas, a pagar a advogados duvidosos, e a viver na corda bamba.

E terceiro, o pior de tudo: As mudanças inesperadas a meio do jogo. Analisem o cenário: Você está há uns 6 anos em Portugal, têm emprego, paga os impostos, cria raízes. Está a contar os dias para pedir a nacionalidade, porque a lei sempre disse que eram precisos 5 anos para isso. De repente, chega 2025 e o governo vira a mesa! Agora são precisos 7 anos para falantes de português e 10 anos para os outros. Mas a pior facada é esta: o tempo que passaram a espera da burocracia da AIMA deixa de contar para estes prazos.

Em 2006, a lei mudava, mas com aviso prévio, ou transições suaves. Agora não. Mudam as regras já quando esta no meio do jogo. Mudam quando as pessoas já gastaram as poupanças todas. Fora o fim das “manifestações de interesse”, que fechou a porta a quem entrava como turista e regularizava-se, uma prática que, apesar de polêmica, era a única saída para muitos.

Se compararmos com 2006, a grande diferença é que antigamente a imigração não era um fenômeno tão grande e o pais conseguia absorver as pessoas com mais dignidade. Hoje, com este volume excessivo, o sistema simplesmente partiu, colapsou. O que eu vejo com um pais que esta com a população envelhecer. É um Portugal que quer os braços dos imigrantes, mas lhes fecha a porta na cara com tanta burocracia.

Portugal sabe que é um bom destino a imigração, mas ainda não aprendeu a ser um bom anfitrião. A história que conto hoje é de um pais que precisa de gente, mas não sabe como agir corretamente. E acreditem, se não mudarem a forma como tratam quem chega, esta história pode ter um fim diferente para todos, e acredito que não será para melhor.

Por: Kal Oliveira

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